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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

(Lição 05) Como organizar eficazmente o tempo de estudo

Organizar o tempo de estudo é uma competência que deve ser desenvolvida desde cedo. A elaboração de um horário de estudo pode facilitar essa tarefa.
Por Armanda Zenhas

A organização do tempo de estudo costuma ser determinada pelas datas dos testes. Em vésperas de um teste, estuda-se. Quando não há testes à vista, deixa-se para amanhã (ou para depois de depois de amanhã) aquilo que se deve fazer hoje. Aprende-se a técnica no Ensino Básico e ela perdura pela vida estudantil afora, determinando noitadas nos anos mais avançados e insucessos ou aprendizagens mal coladas em todos eles.

Organizar o tempo de estudo é uma competência que deve ser desenvolvida desde cedo. A elaboração de um horário de estudo pode facilitar essa tarefa. Os estudantes, principalmente se são muito jovens, precisam, para isso, do apoio dos professores e dos pais. Calvin, o nosso amigo da banda desenhada, aprendeu como o fazer e partiu para a tarefa muito entusiasmado, mas sozinho...


Calvin sabia que o seu estudo seria mais eficaz se organizasse o tempo. Ele sabia que devia prever um determinado tempo para estudar cada disciplina. Apenas se esqueceu de adequar os espaços de tempo às necessidades de estudo. Vejamos algumas regras para que essa organização seja eficaz:
  • Diariamente é necessário fazer revisões das matérias dadas nesse dia e os TPC.
  • Nos dias em que há menos aulas, deve ser feito um estudo mais aprofundado das várias matérias, incidindo particularmente sobre aquelas em que se tem mais dificuldades.
  • O estudo deve ser iniciado por uma disciplina de dificuldade média, seguindo-se as mais difíceis. Para o fim ficam as mais fáceis, visto já se estar mais cansado e menos apto a um grande esforço.
  • Ao fim de cada espaço de 20 a 40 minutos, deve ser feita uma pequena pausa, durante a qual não se deve ver televisão ou jogar computador, para que a pausa seja de fato pequena e não se perca a concentração no estudo.
  • O tempo a dedicar diariamente ao estudo depende do horário do aluno e do próprio aluno.
A competência de organização do tempo de estudo precisa de ser gradualmente desenvolvida e requer motivação. O papel dos pais é extremamente importante. Eles podem facilitar a criação de condições físicas em casa (local de estudo adequado, impedimento de interrupções ao estudo por parte dos amigos e dos irmãos, etc.), podem valorizar o trabalho dos filhos, podem dar-lhes apoio afetivo. Um elogio ou um carinho após cada pequena conquista podem ser preciosos reforços. Talvez assim os filhos aprendam a usar um relógio de cozinha ou um relógio mental que consiga medir tempos maiores e mais adequados do que o do Calvin.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

(Lição 05) Dicas para refletir sobre a forma como se estuda

Cada estudante deve compreender os pontos fortes e fracos da forma como estuda e aperfeiçoar os seus métodos, para que o seu esforço seja bem sucedido.
Por Armanda Zenhas

"Quanto mais estudo, menos sei.", "Não vale a pena estudar", "Estudei até às duas da manhã e tirei 'zero'. No outro teste, não estudei nada e tirei ´seis´."

Terminado o primeiro bimestre e recebidas as primeiras notas do ano letivo, é tempo de balanço. Quantos estudantes fazem comentários como estes? Quantos atribuem à sorte ou ao azar os resultados dos testes ou do bimestre? Quantos descrêem completamente das suas capacidades?

Vale a pena o estudante refletir sobre o que se passou ao longo do bimestre. A reflexão pode ser feita a sós, se ele já for mais velho, ou com a ajuda de um familiar ou de um professor. Algumas questões podem orientar essa tarefa:
  • Estudei diariamente ou concentrei o meu estudo apenas nas vésperas dos testes?
  • O ambiente em que eu estudava me ajudava a estar concentrado ou havia coisas que me distraíam (televisão ou computador ligados, brinquedos, conversas demasiado próximas, o celular sempre anunciando novas mensagens, etc.)?
  • Antes de iniciar qualquer exercício de aplicação de uma matéria, fiz revisões do conteúdo estudado?
  • Quando acabava de estudar, verificava se tinha compreendido a matéria?
  • Apontei as dúvidas e tentei esclarecê-las com alguém (colegas, familiares, professores)?
  • Estive atento nas aulas e participei nas atividades?
  • Nas aulas, quando tinha dificuldades, desistia e esperava que a correção fosse feita no quadro ou tentava resolver essas dúvidas consultando os livros e o caderno diário ou pedindo ajuda ao professor?
  • Quando faltei às aulas, peguei os resumos e os apontamentos, estudei a matéria dada e esclareci as dúvidas com o professor?
Estas perguntas são apenas sugestões. Elas podem não ser as mais adequadas para todos os estudantes e podem não esgotar os problemas. São, no entanto, um ponto de partida e podem sugerir outras mais pertinentes.

Ressalvando o fato de o insucesso não ter como causa exclusiva a falta de estudo ou um estudo mal conduzido, convém que cada estudante compreenda os pontos fortes e fracos da forma como estuda e aperfeiçoe os seus métodos, para que o seu esforço seja bem sucedido.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

(Lição 11) Álcool e Adolescência

Será que o álcool (como qualquer droga psicoativa legalizada) é “lobo em pele de cordeiro”?
Por José Antônio Zago

É importante ressaltar que não é necessário um indivíduo ser dependente de álcool para que possa apresentar transtornos relacionados ao álcool. Conforme Romelsjo, "Não existe consumo de álcool isento de riscos”. Há muito mais indivíduos não diagnosticados medicamente como alcoolistas, mas que consomem álcool de forma prejudicial à saúde.

Estudos epidemiológicos realizados no Brasil com estudantes de diferentes níveis de ensino revelaram alta prevalência de uso de substâncias psicoativas, principalmente as drogas lícitas. Entre universitários da cidade de São Paulo as drogas utilizadas alguma vez na vida em ordem decrescente foram o álcool, tabaco, inalantes, maconha, medicamentos prescritos e cocaína.

Estudo piloto com adolescentes usuários que buscaram atendimento ambulatorial mostrou que o uso de drogas se iniciou, em média, aos 11,67 anos com o consumo de álcool, o uso regular aos 13,22 anos, evoluindo para o uso do tabaco (12 anos), maconha (13,40 anos), inalantes (13,92 anos) cocaína via inalatória (14, 36 anos), crack (14,67 anos), alucinógenos (15,33 anos) e cocaína endovenosa (16 anos).

De acordo com dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID – www.cebrid.epm.br), pesquisa com estudantes de 1º e 2º Graus de 10 capitais brasileiras, 65% dos entrevistados afirmaram consumo de bebidas alcoólicas, dos quais 50% iniciaram o uso entre os 10 e 12 anos de idade (GALDURÓZ, NOTO & CARLINI, 1997).

A prevalência de casos de alcoolismo entre garotas tem aumentado, bem como o envolvimento em acidentes de carro quando embriagadas. Isso significa que vem ocorrendo uma mudança de comportamento na última década: as garotas têm mais liberdade para frequentar locais e eventos onde se consome bebida alcoólica antes mais restrito a adolescentes do sexo masculino, aprendendo, então, os mesmos comportamentos de consumo.

Por que adolescentes consomem bebidas alcoólicas
A adolescência é o período por excelência de risco para o ingresso no uso de substâncias psicoativas. Não só pelo fato de querer experienciar o novo, buscar novas emoções e desafios, mas também encontrar nessas novas buscas "respostas" para o seu viver. A sociedade, em seus diversos segmentos e o poder midiático influenciando o comportamento social, na maioria das vezes, apontam caminhos mais para a obtenção de objetos de consumo, menos preocupados então com respostas visando o crescimento interior.

No que se refere ao álcool, o problema é mais grave. Por ele estar tão próximo, tão acessível, deixa a impressão de que é semelhante a um animal doméstico que não causa mal algum. O álcool está inserido na cultura, presente nos lazeres e encontros adolescentes, presente dentro das casas, presente tanto na vida profana como no ritual religioso. Desse modo, consumir álcool pode parecer normal para o adolescente, sem muita censura ou orientação por parte dos pais.

Conforme estudo apresentado pela UNESCO, "estudantes começam a beber por curiosidade, pelo desejo de inserção social, para esquecer problemas e para `ter coragem' nas `paqueras'”.

Na elaboração de sua identidade o adolescente pode perceber que o álcool pode amenizar momentos de angústias e interferir na elaboração da busca do novo sentido de si mesmo, porém, esse amenizar, pode implicar num sentido de vida fragilizado. Geralmente, o adolescente percebe que quando consome álcool teoricamente as coisas ficam mais fáceis, contudo, não percebe que, inadvertidamente, pode transformar o consumo de álcool como parte da busca de seu sentido de vida e de ser-no-mundo, ou seja, tornar o consumo de álcool como ingrediente indispensável na elaboração de sua crise.

Embora seja conhecidos atualmente alguns fatores de risco e de proteção do adolescente em relação às substâncias psicoativas, é necessário enfatizar que além da disponibilidade e da propaganda, é fácil o acesso à bebida alcoólica pelos adolescentes, ou seja, a vulnerabilidade sócio-cultural ao álcool. Também, não é demais repetir um dado importante: não existe consumo de álcool sem risco, ou, não é necessário ser um alcoolista para se ter problemas com bebida alcoólica.

O adolescente “fraco” e o “forte” para a bebida alcoólica
Na adolescência, quando das primeiras experiências com a bebida alcoólica, há o adolescente fraco e o adolescente forte em relação ao álcool.
O adolescente fraco (sensível) para o beber é aquele que com uma ou duas doses de bebida alcoólica já se sente alterado e, ao mesmo tempo, pode passar mal com isso. Não consegue então beber mais que isso, porque não se sente bem. No dia seguinte ao uso ou ao abuso de álcool, o fraco para o beber não pode ver bebida alcoólica em sua frente. Sente os efeitos do álcool: mal estar, dor de cabeça, problemas abdominais, indisposição.

O adolescente forte (tolerante) para o beber é o que suporta beber quantias maiores sem muita alteração. Desenvolve também, com o aprendizado de beber, a tolerância comportamental, quer dizer, a capacidade de executar tarefas mesmo sob o efeito do álcool. É aquele que é enaltecido pela turma pelo fato de aguentar a beber. É o que ajuda a levar para a casa um colega que não passou bem com a bebida, isto é, o colega fraco para beber. No dia seguinte, o forte para o beber, mesmo sentido alguns efeitos do consumo de álcool do dia anterior, mostra disposição para beber novamente.

O fraco para beber, assim por sua sensibilidade, impõe-se um limite quanto à bebida. O forte não. Sempre está disposto a beber. E ao ser enaltecido pelo grupo de convivência como alguém que é forte para beber, já que a adolescência é um período de auto-afirmação, sente-se elogiado com isso, o que reforça seu comportamento de beber.
Constatamos que as pessoas em tratamento que desenvolveram um quadro de dependência de álcool - diagnosticados geralmente na vida adulta, portanto depois de anos e anos de uso e abuso de álcool - são os que na juventude mostraram tolerância ao álcool e por isso mantiveram o comportamento de aumentar cada vez mais o consumo de bebida até surgirem os sintomas de dependência do álcool e os problemas decorrentes: físicos, desorganização da vida, perdas ou ameaças de perdas, por exemplo emprego, separação conjugal, condutas agressivas, condutas irresponsáveis, entre outros.

Por que há adolescentes sensíveis ao álcool enquanto outros são tolerantes? É possível que a resposta esteja nas diferenças individuais quanto à vulnerabilidade biológica, isto é, do organismo ao álcool.
Ainda, um dado importante: o adolescente sensível ou o tolerante que, durante ou após o consumo de bebida alcoólica, apresenta alterações cognitivas, de humor ou comportamentais, causando preocupação aos colegas e ao ambiente, por exemplo, agressividade verbal ou física, prejuízo da crítica pessoal e social, perda da consciência, não terá no futuro um problema com o álcool, pois já o tem no presente.

Álcool – legal ou ilegal?
Embora o álcool seja uma droga legalizada e inserida na cultura, há restrições legais quanto à venda e o consumo de bebida alcoólica. A venda de bebida alcoólica é proibida para menores de 18 anos, ratificado pelo artigo 81 do ECA que proíbe a venda a menores de 18 anos "de substâncias com risco de criar dependência". E o decreto-lei 28.643, em vigor desde agosto de 1998, proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas a menos de 100 metros dos estabelecimentos de ensino. Na prática sabemos que adolescentes consomem bebida alcoólica publicamente, sem que sejam obrigados, pelos locais de venda, a apresentar documento que comprove idade igual ou superior a 18 anos para que a bebida seja vendida.

Levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo apontou que 48,9% das escolas da rede no interior paulista possuem bares a menos de 100 metros dos portões de entrada, seguida da Grande São Paulo (sem contar a capital) com 45,9% e da capital com 40%. O levantamento revelou ainda a existência de bares a mais de 100 metros de qualquer entrada de escola, porém no mesmo quarteirão das escolas em 34% dos estabelecimentos de ensino da capital, em 32,9% da Grande São Paulo e 28,5% do interior do Estado (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO, 2002). Aqui cabe uma questão: se o fato de um traficante vender substâncias psicoativas ilegais nas portas das escolas provoca indignação e até denúncia, então por que encaramos com normalidade o comércio ilícito de bebidas alcoólicas no entorno das escolas? O álcool, como já apontado, embora seja a última droga a apresentar problemas, geralmente é a primeira de acesso.

Também, a falta de uma política adequada de controle à propaganda maciça de bebidas alcoólicas pelos meios de comunicação social, geralmente associada aos "bons momentos da vida, e a facilidade de obter o produto, quer pela disponibilidade e variedade, quer pelo baixo preço, torna o álcool uma droga atrativa, acessível e presente nas mais diversas formas de entretenimento do universo da juventude.

Além disso, tanto as famílias quanto a sociedade aceitam com certa naturalidade um adolescente consumir alcoólicos. Alguma censura pode ocorrer em caso de algum abuso por parte desse adolescente, contudo, de forma geral, o uso de bebida alcoólica por jovens é comum e tolerada na vida familiar, em momentos de comemorações, na convivência grupal, etc.

Se, de um lado, para considerável parcela de adolescentes, como qualquer outra substância psicoativa, além do apelo da propaganda, o álcool tem seu poder de atração, por outro não tem a força de censura atribuída às substâncias ilegais, dado que o uso do álcool, na prática, é livre. Isso significa que um adolescente pode beber alcoólicos sem a culpa de estar cometendo uma transgressão (que na realidade está) como poderia sentir se consumisse alguma droga ilícita. Se consumir determinada droga ilícita, o adolescente fará isso de forma velada a fim de não se expor, pois sabe que estará transgredindo a lei ou ao menos emitindo um comportamento passível de repreensão ou censura.

Se os familiares descobrem ou são informados de que o filho ou filha adolescente está fazendo uso de uma droga ilícita, por exemplo, a maconha, os pais, de uma maneira ou de outra, iniciam um processo de trabalhar a questão. Esse modo de trabalhar a questão varia muito, desde a desconfiança, sondagem e interrogatório até a frustração ou formas claras de explosão, raiva ou violência. A droga ilícita, provavelmente por tal caráter e pela censura que desperta na sociedade, desencadeia um pânico na família, quando as pessoas próximas do usuário estabelecem uma resistência criando um conflito. Ou seja, o uso de uma droga ilícita simplesmente não é aceito de forma natural por aqueles que convivem com o usuário. Com o álcool, dado seu caráter legal e de estar inserido na cultura, tal síndrome de alarme não ocorre. Portanto, a bebida alcoólica, além de seu poder atrativo, não contém poder de censura.

O álcool, como qualquer droga psicoativa legalizada, é lobo em pele de cordeiro.

Autor
José Antônio Zago
Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria - Itapira - SP
Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba.

Extraído e resumido de:
Álcool e Adolescência – artigos I a VIII

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

(Lição 11) Religião e uso de drogas por adolescentes

Pesquisas revelam que utilizam significativamente menos álcool e drogas os grupos de estudantes protestantes pertencentes a denominações mais conservadoras (protestantes históricos e pentecostais).


Muitos estudos, realizados em diferentes contextos socioculturais, demonstram que em populações de estudantes adolescentes e jovens verifica-se a associação entre não ter religião (ou pertencer a denominações mais liberais), ter pouca crença religiosa, não frequentar igreja e cultos e maior uso de álcool e drogas.

Em nosso país, o mais amplo estudo que inclui o tema religião e uso de drogas em adolescentes foi realizado em 1992. Este estudo incluiu 16.117 estudantes de primeiro e segundo graus, de quinze cidades brasileiras, mostrando uma correlação negativa fraca, mas constante, entre consumo de álcool e drogas e frequência de atividades religiosas. Os jovens praticantes de atividades religiosas tendiam, dessa forma, a um menor uso de álcool e drogas.

Borini e colaboradores, em 1994, estudando 322 estudantes de medicina em Marília, SP, verificou que a prevalência do uso de álcool (incluindo bebedores discretos, moderados e excessivos) era significativamente menor entre os protestantes (50%) em relação aos católicos (75,2%), espíritas (75,0%) e ateus (94,5%). Ele também não detectou, nessa amostra, bebedores excessivos entre os protestantes e os espíritas.

Com uma população bem maior, o estudo de Queiroz incluiu 2.564 estudantes universitários de 21 cursos da USP e utilizou uma análise de regressão logística. Este estudo revelou uma associação entre maior uso de drogas e não ter uma religião.

Mais recentemente, Kerr-Corrêa e colaboradores, em 2002, realizaram um levantamento com 11.876 estudantes (11.382 universitários e 624 secundários) do Estado de São Paulo. Através de análise de regressão logística, os autores identificaram que, entre os estudantes secundaristas, o uso excessivo de álcool relacionou-se a não praticar religião. Entre os estudantes universitários, o uso de maconha associou-se a não ter religião e o uso de solventes a não praticar religião. Analisando os resultados como um todo, os autores concluem que o uso de álcool e drogas é modulado por normas, valores e práticas grupais, tanto do grupo familiar como de grupos extrafamiliares (amigos, religião, etc).

Os dados da presente pesquisa, assim como outros estudos, revelam que utilizam significativamente menos álcool e drogas os grupos de estudantes protestantes pertencentes a denominações mais conservadoras. Tais grupos (nos EUA, protestantes conservadores e, no Brasil, protestantes históricos e pentecostais) condenam o uso de álcool e drogas de forma mais clara e explícita do que os grupos mais liberais (nos EUA, protestantes liberais e católicos; e no Brasil, católicos e espíritas), entre os quais a condenação não é tão enfatizada.

Bock e colaboradores, ao analisarem os dados do senso norte-americano de 1972 a 1980 para pessoas não institucionalizadas com mais de 18 anos, verificaram que o impacto inibidor da religião sobre o uso e abuso de álcool é progressivamente maior naqueles grupos religiosos que explicitamente condenam tal uso. Nesta linha, dois trabalhos recentes identificaram, em amostras extensas e com métodos epidemiológicos rigorosos, a associação entre pertencer a grupos religiosos conservadores, assim como ter maior devoção religiosa pessoal, e utilizar menos e ter menos dependência ao álcool e outras drogas.

Desta forma, nossos resultados, assim como os estudos mencionados, apontam para uma possível maior influência de uma religiosidade internalizada, com normas, valores e proibições ancoradas na subjetividade do adolescente, dimensão esta possivelmente mais importante do que o simples frequentar uma determinada denominação. Estudos futuros deverão investigar mais profundamente essa possibilidade.
Em conclusão, gostaríamos de lembrar que, ao se aderir a uma denominação religiosa e envolver-se com padrões de religiosidade, adere-se a um conjunto de valores, símbolos, comportamentos e práticas sociais, enfim, adere-se a um amplo e complexo ethos religioso que inclui, entre outras coisas, a aceitação ou recusa ao uso de álcool e drogas.

RESULTADOS: O uso pesado de pelo menos uma droga foi maior entre os estudantes que tiveram educação na infância sem religião. O uso no mês de cocaína e de "medicamentos para dar barato" foi maior nos estudantes que não tinham religião. O uso no mês de ecstasy e de "medicamentos para dar barato" foi maior nos estudantes que não tiveram educação religiosa na infância.

CONCLUSÕES: Várias dimensões da religiosidade relacionam-se com o uso de drogas por adolescentes, com possível efeito inibidor. Particularmente interessante foi que uma maior educação religiosa na infância mostrou-se marcadamente importante em tal possível inibição.

Autores:
Paulo Dalgalarrondo
Meire Aparecida Soldera
Heleno Rodrigues Corrêa Filho
Cleide Aparecida M. Silva

Extraído e resumido de:

Original em:
Revista Brasileira de Psiquiatria, vol.26, n.2 – São Paulo, junho/2004

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

(Lição 12) Anorexia nervosa e bulimia

O que são, como se manifestam e quais as diferenças entre essas doenças cada vez mais comuns entre as adolescentes.
Entrevista
Dr. Drauzio Varella entrevista Dr. Táki Cordás, médico psiquiatra e professor de Psiquiatria na Universidade de São Paulo.


Antigamente, um pouco de gordura no corpo era sinal de saúde. Aí veio a medicina dizendo que não há vantagem nenhuma em acumular tecido adiposo; ao contrário, que todos devemos ser magros.

Ao lado dessa recomendação médica, a pressão social do padrão de beleza que se baseia em modelos bonitas e absolutamente magras, sem um grama de gordura no corpo, tiranizou a vida de muita gente. Hoje, a quantidade de pessoas que luta para perder peso, faz dietas e toma remédios é enorme.

Essa preocupação exagerada pode provocar um distúrbio psiquiátrico grave, cada vez mais frequente, que é a distorção da autoimagem. A pessoa se olha no espelho e vê uma figura obesa que não corresponde à realidade. Não nota a perda de gordura subcutânea nem os ossos proeminentes. Iludida por essa falsa imagem, imagina-se com excesso de peso e diminui obsessivamente a ingestão de alimentos até que, num dado momento, não consegue comer mais. Como consequência, pode desenvolver problemas graves de saúde que chegam, às vezes, a ser fatais.

A anorexia nervosa se manifesta especialmente nas mulheres, embora sua incidência esteja aumentando também nos homens.

Drauzio – Estamos vivendo uma epidemia de anorexia nervosa ou esses casos sempre existiram, mas não eram diagnosticados?
Táki Cordás – É muito antigo o registro de histórias de pessoas com bulimia e anorexia nervosas. Sabe-se que, desde a Antiguidade, algumas faziam jejum ou vomitavam várias vezes por dia para emagrecer ou manter o peso que julgavam ideal.
Não resta dúvida de que essa tendência assumiu características assustadoras de 1950/1960 para cá. A pressão pela magreza absoluta aumentou o número de portadores dessas patologias. Cada vez mais gente, que não apresenta motivo algum para fazer dieta, restringe a alimentação de forma drástica. No Brasil, a situação agrava-se porque, infelizmente, é fácil obter moderadores de apetite ou hormônios tiroidianos.

Drauzio – Essa perda de peso assustadora reflete uma grande modificação no organismo. Quais são os órgãos que mais sofrem com essa privação de alimentos?
Táki Cordás – A primeira alteração aparece na pele e nos pêlos. A pele fica extremamente seca e coberta por lanugo, pêlos que se parecem com barba de milho. Essas moças apresentam também amenorréia, isto é, deixam de menstruar e sofrem uma regressão nas características femininas. Os seios e os grandes lábios praticamente desaparecem.
No que se refere à menstruação, quanto mais tempo ela estiver ausente, maior dificuldade a mulher encontrará para engravidar e caso o consiga, o que é raro, maiores dificuldades encontrará durante o parto. No entanto, a osteoporose pode ser considerada a manifestação mais grave da doença. Fraturas podem ocorrer espontaneamente. A pessoa está andando e cai porque um osso se quebrou sem ter sofrido nenhum traumatismo direto.
Além disso, alterações intestinais e cardíacas importantes são frequentes, porque muitas anoréxicas não só deixam de comer adequadamente como passam a usar laxantes e diuréticos. Como se sabe, o diurético provoca uma queda de potássio, elemento fundamental para o bom funcionamento do coração. Sua ausência pode causar morte por arritmia ou parada cardíaca. Associado aos laxantes, o diurético aumenta a perda de água do organismo o que pode causar desidratação e insuficiência renal. No Hospital das Clínicas, há pacientes obrigados a fazer hemodiálise porque perderam um rim por causa da desidratação.
Curioso é que muitas dessas mulheres transportam esse padrão de comportamento alimentar para os filhos e proíbem as crianças de irem a festinhas para evitar a tentação de comer um brigadeiro. Essas mães anoréxicas começam a restringir a dieta das crianças desde cedo e criam filhos desnutridos. As coisas chegam a tal extremo que se faz necessário alertar os parentes próximos para intervirem e interromperem esse processo prejudicial ao desenvolvimento infantil.

Drauzio - A bulimia é uma doença mais fácil de tratar?
Táki Cordás - A bulimia é doença mais heterogênea. Às vezes, aparece um caso de manifestação recente. É a história da menina que foi a um churrasco, comeu um pouquinho mais e deu uma vomitadinha. Você lhe explica, então, os riscos da doença e que essa brincadeira inconsequente pode transformar-se num vício difícil de superar. Casos leves resolvem-se em poucas consultas de orientação comportamental, mas há outros tão graves quanto os de anorexia nervosa que demandam tratamento mais longo. No geral, porém, pacientes com anorexia nervosa são muito mais difíceis de tratar.
Drauzio – O vômito da bulimia é sempre provocado ou a partir da criação de um reflexo pode aparecer espontaneamente?
Táki Cordás - Quando se vomita com frequência pode-se ter uma inversão dos movimentos peristálticos do esôfago que, em vez de fazer movimentos musculares na direção do estômago para conduzir a comida, os faz no sentido inverso. Algumas dessas moças afirmam que nem precisam enfiar o dedo ou a escova de dentes na garganta. Basta tomarem um pouco de água e apertar levemente a barriga que o vômito ocorre. Às vezes, é possível vomitar mesmo sem fazer força alguma.

Drauzio – Como fazer para que as pessoas controlem o peso sem cair nesses casos extremos?
Táki Cordás – Infelizmente, todos os trabalhos realizados no sentido de prevenir o problema falharam. Há várias razões para isso. Por exemplo, esta entrevista alertando sobre os problemas que essas doenças acarretam é uma gota d’água no oceano da propaganda que defende interesses comerciais milionários, associando seus produtos a ideais de magreza e sedução.
Estudos realizados nos Estados Unidos demonstraram que palestras sobre anorexia nervosa e bulimia proferidas nas escolas não ajudaram a diminuir a incidência dessas patologias entre os estudantes. Talvez adiantasse um programa permanente de orientação para pais e crianças, mas até o momento não se sabe o que realmente traria resultado satisfatório em termos de prevenção.

Drauzio – Qual a diferença entre bulimia e anorexia nervosas?
Táki Cordás – Na anorexia nervosa, o emagrecimento é muito acentuado. Para avaliá-lo, utiliza-se como parâmetro o IMC (índice de massa corpórea que é igual ao peso dividido pela altura ao quadrado). Na mulher, esse número deve variar entre 19 e 24 e nos homens, entre 20 e 25. Índices inferiores a 17 ou 17,5 indicam perda de peso importante. Pacientes com anorexia nervosa sempre apresentam peso abaixo do normal e recusam-se a alimentar-se adequadamente mesmo sabendo do risco que correm. Dedicam-se a atividades físicas exageradas, jejuam, vomitam, usam recursos purgativos e moderadores de apetite porque têm uma distorção grave da autoimagem. Uma moça esquálida, pesando 20kg, é capaz de sentir-se obesa e dizer: “Olha como meu quadril está enorme! Eu estou um elefante, preciso continuar emagrecendo!”. No Hospital das Clínicas, às vezes, aparecem pacientes que antes de qualquer atendimento psiquiátrico são mandados para a UTI, tal a gravidade do seu estado.
Na bulimia, os sintomas são diferentes. Não é a magreza que chama a atenção. Às vezes, são mulheres de corpo escultural que cuidam dele de maneira obsessiva. Passam o dia fazendo dieta. Vão a restaurantes e pedem somente uma salada. Se houver uma batatinha palha no prato, colocam-na de lado. No entanto, de uma hora para outra abrem a geladeira ou vão a uma confeitaria e comem tudo o que veem pela frente. Apesar de a ingesta normal do indivíduo variar entre 2000 Kcal e 2500 Kcal diárias, elas conseguem comer num único episódio de 5000 Kcal a 20000 Kcal de uma vez. Depois vomitam, vomitam muito. Algumas chegam a vomitar 5, 10, 15 vezes por dia para evitar o aumento de peso e provocam tantos vômitos que chegam a ferir os dedos.
Drauzio – Em geral, as mulheres tendem a ter uma visão distorcida da própria imagem, não é mesmo?
Táki Cordás – Alguns estudos mostram que certas mulheres de corpo escultural, verdadeiras capas de revista, estão insatisfeitas com o próprio corpo. Essa autoimagem distorcida é comum nas mulheres, mas não costuma ser tão grave que possa causar uma anorexia nervosa. Se fizéssemos uma pesquisa com ambos os sexos, verificaríamos que é muito maior a porcentagem de mulheres descontentes com o corpo do que a de homens e que a queixa aumenta no período pré-menstrual, ou naqueles em que estão mais irritadas, ansiosas ou deprimidas.
Drauzio – Normalmente quanto tempo leva um quadro desses para chegar à caquexia, isto é, a esse grau extremo de fraqueza e desnutrição?
Táki Cordás – Às vezes, é muito rápido, tão rápido que as famílias nem percebem o que está acontecendo, uma vez que as filhas costumam disfarçar a magreza exagerada vestindo roupas largas e uma peça sobre a outra. Além disso, passam mais tempo fora de casa e, quando voltam, dão a desculpa de que não querem comer porque já jantaram ou almoçaram em outro lugar. Os familiares, em geral, só descobrem o que está acontecendo meses depois que o problema está instalado porque alguém por acaso surpreende a moça trocando de roupa e vê quão esquelética ela se encontra. Recordo de uma mocinha que foi a um programa de televisão à procura de um médico porque ninguém conseguia diagnosticar seu caso. Levada de ambulância, deu entrada no Hospital Clínicas pesando 19kg. Era uma aula ambulante de anatomia óssea.

Drauzio – Quer dizer que a diferença básica entre as anoréxicas e as bulímicas é estado de caquexia a que podem chegar as anoréxicas e que algumas delas podem morrer porque não conseguem voltar a alimentar-se?
Táki Cordás – É verdade. O índice de mortalidade por anorexia nervosa atinge entre 15% e 20% dos casos. Eles estão associados a complicações clínicas ou a suicídios, pois a depressão é um distúrbio grave que pode manifestar-se no transcorrer dessa doença.

Drauzio – Esses quadros podem vir associados a outros quadros psiquiátricos como a cleptomania, por exemplo?
Táki Cordás - Exato. Sempre brinco com os residentes ou estagiários que para tratar de pessoas com distúrbio alimentar é preciso conhecer a psiquiatria inteira porque é frequente a associação dessa patologia à depressão, síndrome do pânico, comportamentos obsessivo-compulsivos, cleptomania, automutilação, promiscuidade sexual, alcoolismo e abuso de drogas. É raro encontrar um quadro isolado e todos as manifestações da doença precisam ser tratadas. Há uma foto da princesa da Suécia que andou circulando na imprensa e causou reboliço por causa de seu estado de magreza.
Drauzio – É interessante imaginar que pessoas tão magras como essas possam ter-se sentido gordas diante do espelho.

Drauzio – Em que faixa etária há a prevalência dessa patologia aumenta?
Táki Cordás – A faixa etária da prevalência da anorexia está baixando. Tenho encontrado meninas de 9 ou 10 anos com o problema o que era raro acontecer no passado. Na maioria, porém, os casos de anorexia nervosa despontam na adolescência e os de bulimia, em mulheres entre 20 e 30 anos.

Drauzio – Em que consiste a alimentação dessas pessoas?
Táki Cordás – Quando se alimenta, é só com água e café sem açúcar. Basicamente ingere 200Kcal por dia o que representa um gomo de laranja, uma bolacha cream-craker, uma fatia de ricota, grandes quantidades de chá laxante, muitas vezes diet, e cenoura. Tempos atrás, cuidei de uma garota que só comia pepino e cenoura. Enchia travessas desses vegetais, temperava com limão e sal diet, sem saber que tal classificação significa que esse sal tem menos sódio e é indicado para hipertensos e não para quem deseja emagrecer.

Fonte: